Coluna Literária do Domingo

    Traduzir-se

    Uma parte de mim
    é todo mundo:
    outra parte é ninguém:
    fundo sem fundo.

    Uma parte de mim
    é multidão:
    outra parte estranheza
    e solidão.

    Uma parte de mim
    pesa, pondera:
    outra parte
    delira.

    Uma parte de mim
    almoça e janta:
    outra parte
    se espanta.

    Uma parte de mim
    é permanente:
    outra parte
    se sabe de repente.

    Uma parte de mim
    é só vertigem:
    outra parte,
    linguagem.

    Traduzir uma parte
    na outra parte
    — que é uma questão
    de vida ou morte —
    será arte?

    Ferreira Gullar

     

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