De exceção a transporte de massas
Em 1990, para cada oito carros circulando em Pernambuco, havia uma motocicleta. Os veículos sobre duas rodas somavam 33 mil e representavam 8% do total da frota transitando no estado. Era uma parcela ínfima de representatividade no trânsito. Em quase três décadas, a quantidade de motos aumentou em 32 vezes. Em 2018, a proporção é de 1,2 carro para cada moto. Especialistas defendem que uma forma de mitigar o impacto dessa mudança é rever como um todo o modelo de sistema de transporte priorizado no país.
As motocicletas não foram adotadas somente por incentivos fiscais ou porque a população tinha dinheiro. Foram priorizadas como modal, sobretudo nas cidades de médio porte, porque o sistema de transporte público é deficitário. E nas cidades de grande porte em consequência dos longos engarrafamentos provocados pela adoção volumétrica dos automóveis. “Em alguns centros urbanos, nos horários de pico, a velocidade média das vias não chega a 7km/h. E a moto oferece uma das características mais desejadas pelo viajante, a rapidez no deslocamento. Ela se configura como uma forma mais rápida e barata de transporte”, explica o diretor regional Nordeste da Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTP), César Cavalcanti.
Na visão do professor do departamento de engenharia civil da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Leonardo Meira, a preferência na adoção das motos se explica pela má qualidade do transporte público coletivo. “Ela acaba se tornando útil para aquela pessoa que precisa se locomover, não quer usar o ônibus, mas também não têm dinheiro para comprar um carro”, diz. O Mapa da Motorização Individual ressalta ainda que, como o carro particular, a moto permite uma liberdade quase irrestrita e a possibilidade de realizar uma viagem de porta a porta.
É por isso que, ao mesmo tempo em que questiona a implantação da lei de regulamentação dos mototaxistas, o médico João Veiga ressalta a importância que esses serviços adquiriram nas cidades de médio porte pernambucanas ao longo dos últimos nove anos. “Nosso medo era que a moto virasse transporte coletivo, como é hoje. Agora é algo que não volta mais. São milhares de pessoas empregadas e milhões de pessoas transportadas”, admite.
O mototáxi se converteu em peça fundamental de deslocamento entre a zona rural e os pequenos e médios centros. “São cidades em que o transporte coletivo ou é muito ruim ou inexiste. Não fosse a moto, as pessoas não chegariam ao trabalho, nas escolas. Até dentro dos hospitais e das UPAs do interior têm ponto de mototáxi”, comenta Veiga. Para ele, o grande problema é a fiscalização. Em Caruaru, por exemplo, existe um mototaxista regulamentado para três operando na ilegalidade.
“Os mototaxistas são regulamentados para trafegar nas cidades, mas eles se converteram em transporte intermunicipal, dado que vários municípios estão a menos de 50km uns dos outros. A quantidade de mototaxistas morrendo por acidente com animal vem aumentando exageradamente”, alerta Veiga. Para ele, é de urgência resolver três pontos: melhorar a segurança pessoal de mototaxistas no interior, para a qual sugere a adaptação de veículos ao estilo tuk tuk; a melhoria no transporte público, viabilizando sobretudo o modal a pé. Em terceiro, intensificar a legislação. (DP).






