Em carta aberta, pediatras de Juazeiro e Petrolina denunciam falta de médicos qualificados para atender crianças

Médicos pediatras do Vale do São Francisco divulgaram uma carta aberta para alertar as autoridades públicas sobre a realidade crítica da assistência pediátrica na região.

CARTA ABERTA À POPULAÇÃO E ÀS AUTORIDADES PÚBLICAS

“Nós, médicos pediatras atuantes no Vale do São Francisco, viemos a público manifestar profunda preocupação e indignação diante do cenário atual da assistência pediátrica nas emergências dos estados da Bahia e Pernambuco.

A realidade vivenciada diariamente nas unidades de saúde é grave, persistente e, sobretudo, perigosa.

Há uma insuficiência crítica de pediatras qualificados para compor as escalas de atendimento nas emergências pediátricas. Em resposta a essa carência — que deveria ser tratada com planejamento, valorização profissional e responsabilidade sanitária — observa-se uma prática alarmante: a substituição de especialistas por profissionais sem a devida formação, experiência ou habilitação para o cuidado pediátrico.

Tal conduta não apenas fragiliza a qualidade da assistência, como expõe diretamente crianças e suas famílias a riscos evitáveis.

A pediatria é uma especialidade que exige conhecimento técnico específico, experiência clínica apurada e tomada de decisão rápida e segura. A sua banalização representa um risco concreto à vida.

Além disso, agrava-se esse cenário o fato de que, em diversas unidades geridas por Organizações Sociais, profissionais sem formação pediátrica têm sido contratados para exercer funções equivalentes às de especialistas, recebendo remuneração idêntica. Essa prática desvaloriza a formação médica, desestimula pediatras qualificados e contribui para o esvaziamento ainda maior das escalas.

Paralelamente, a irregularidade e atraso nos pagamentos, especialmente em unidades vinculadas ao estado da Bahia, têm gerado insegurança financeira e desmotivação entre profissionais habilitados — que, como qualquer trabalhador, dependem de sua remuneração para sobreviver com dignidade.

O resultado é um sistema que opera no limite, sustentado por improvisos e decisões que colocam em risco a segurança assistencial.

Quem sofre as consequências diretas desse cenário é a população.

Crianças estão sendo atendidas por profissionais sem a qualificação necessária, o que pode resultar em imperícia, imprudência e negligência, contribuindo para o aumento de complicações e óbitos potencialmente evitáveis.

Não se trata de uma crítica isolada, mas de um alerta coletivo.

Estamos diante de uma situação que exige ação imediata das autoridades públicas estaduais e municipais, bem como das entidades responsáveis pela gestão das unidades de saúde.

É urgente:
• Garantir a presença de pediatras qualificados nas emergências pediátricas
• Regularizar e assegurar o pagamento digno e em dia aos profissionais
• Estabelecer critérios técnicos rigorosos para atuação em pediatria
• Valorizar a formação especializada, respeitando a complexidade do cuidado infantil
• Promover condições adequadas de trabalho que assegurem assistência segura à população

A saúde infantil não pode ser tratada com improviso.

Cada criança atendida representa uma vida em formação, um futuro em construção — e merece ser assistida com responsabilidade, competência e dignidade.

Seguiremos comprometidos com nosso dever ético, mas não nos calaremos diante de um cenário que compromete vidas.

A omissão também adoece. E, neste caso, pode matar.”

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