Floro Firmino Alves: o operário que levou Petrolina ao Brasil 

Por Rinaldo Remígio

Falar de Petrolina por ocasião de seu aniversário é abrir as portas da memória. É revisitar ruas, instituições, empresas, famílias e, sobretudo, nomes de homens e mulheres que ajudaram a construir a grandeza desta cidade.

Algumas pessoas participaram da história de Petrolina. Outras, porém, confundem-se com a própria história do município. Suas vidas tornaram-se capítulos de uma narrativa maior, escrita com trabalho, honestidade, dedicação e amor por esta terra.

É o caso de um homem simples e extraordinário, que fez de sua profissão um símbolo nacional. Um trabalhador que saiu de Petrolina para ser reconhecido em todo o Brasil: Floro Firmino Alves, o Operário Padrão do Brasil.

Natural de Jardim, no Ceará, Floro nasceu em 5 de maio de 1934. Chegou a Petrolina aos 22 anos, vindo de Ouricuri, mas sua intenção era permanecer na cidade apenas por algum tempo. Como tantos nordestinos de sua geração, alimentava o projeto de seguir viagem para São Paulo, em busca de trabalho e de novas oportunidades.

O destino, entretanto, havia reservado para ele outro caminho.

Coincidência ou não, ao revisitar a história de Floro, encontro um ponto que toca profundamente a minha própria caminhada. Também cheguei a Petrolina ainda muito jovem, aos 20 anos. Ele chegou em outro tempo e viveu circunstâncias diferentes das minhas, mas Deus, em sua infinita misericórdia, concedeu a nós dois, em momentos distintos, excelentes oportunidades nesta terra generosa. Petrolina acolheu nossos sonhos, abriu-nos portas e permitiu que aqui construíssemos nossas histórias.

Floro havia trabalhado com o pai de Dona Lizete, esposa de Paulo Coelho. Conhecendo sua capacidade profissional e percebendo seu potencial, ela pediu ao marido que não permitisse que aquele jovem trabalhador partisse. Petrolina ganhou, assim, um cidadão que dedicaria mais de meio século de sua vida ao trabalho e ao desenvolvimento da cidade.

Floro começou a trabalhar no Grupo Coelho, exercendo a profissão de mecânico industrial. Naqueles tempos, Petrolina ainda não possuía as dimensões econômicas e urbanas que apresenta atualmente. A industrialização começava a ganhar espaço, as oportunidades eram construídas com muito esforço e o conhecimento profissional resultava, sobretudo, da prática, da disciplina e da vontade de aprender.

Na oficina, entre máquinas, ferramentas e o ruído constante dos equipamentos, Floro edificou sua trajetória. Não precisou de discursos para demonstrar seu valor. Sua linguagem era o trabalho bem-feito. Sua apresentação era a pontualidade. Seu cartão de visitas, a responsabilidade.

Com o passar dos anos, sua competência foi reconhecida. Floro tornou-se supervisor de manutenção do Grupo Coelho, função que exerceu com seriedade, liderança e profundo conhecimento técnico. Ali permaneceu até a aposentadoria e, mesmo aposentado, continuou trabalhando e exercendo a mesma atividade durante muitos anos.

Foram mais de cinco décadas de dedicação exemplar.

Em 1984, sua história ultrapassou os limites das indústrias e ganhou projeção nacional. Por sua competência, responsabilidade e dedicação, Floro foi indicado para concorrer ao título de Operário Padrão.

Primeiramente, disputou com trabalhadores de diversas empresas de Petrolina e foi escolhido o melhor entre eles. Depois, seguiu para o Recife, representando nossa cidade. Novamente, destacou-se e venceu a etapa estadual.

A caminhada ainda não havia terminado.

Floro foi a Brasília para representar Pernambuco na seleção nacional. Diante de trabalhadores vindos de todos os estados da Federação, aquele mecânico industrial que um dia chegara a Petrolina pensando em seguir para São Paulo voltou a se destacar.

A competência venceu mais uma vez.

Floro Firmino Alves foi consagrado Operário Padrão do Brasil.

A conquista não pertencia somente a ele ou à sua família. Pertencia também a Petrolina. Naquele momento, um trabalhador de nossa cidade mostrava ao país a força, a capacidade e a dignidade do operário nordestino. Das oficinas do Grupo Coelho para Brasília, Floro levou consigo o nome de Petrolina e o orgulho de todos aqueles que acreditam no trabalho como instrumento de transformação.

Entretanto, sua vida não se resumiu à atividade profissional. Floro também compreendia que uma cidade se constrói por meio da solidariedade e da participação comunitária.

Na década de 1970, desenvolveu um importante trabalho social voluntário como juiz de menores, função que, guardadas as diferenças históricas e legais, exercia atribuições de proteção às crianças e aos adolescentes, hoje associadas ao trabalho dos conselhos tutelares.

Também ofereceu sua contribuição ao futebol petrolinense. Foi um grande incentivador do esporte, idealizou equipes formadas por trabalhadores das Indústrias Coelho e participou voluntariamente da direção de clubes. Para ele, o futebol representava mais do que uma competição: era convivência, amizade, disciplina e integração entre os trabalhadores.

Ao seu lado esteve Maria do Socorro Alves, companheira com quem construiu uma família numerosa e abençoada. O casal teve seis filhos, e a árvore plantada por Floro cresceu: vieram 16 netos e 12 bisnetos, responsáveis por preservar sua memória e transmitir seu exemplo às novas gerações.

Tive a oportunidade de conhecer mais de perto essa bela história por intermédio de sua filha, Vânia Alves, minha ex-aluna, e também de seu talentoso filho, Edenevaldo Alves, comunicador de primeira qualidade e igualmente meu ex-aluno. Depois de ouvir seus relatos, ler sobre a trajetória de Floro e buscar outras informações, senti-me honrado em presenteá-los com esta singela crônica — pequena em palavras, certamente, diante da grandeza do homem, de sua história e do legado que deixou.

Floro faleceu em 11 de agosto de 2021. Partiu deixando saudades, mas também um legado que o tempo não será capaz de apagar.

Ao celebrar mais um aniversário de Petrolina, é justo recordar personagens como ele. Uma cidade não é construída apenas por grandes obras, prédios, avenidas ou investimentos públicos. Ela é edificada, principalmente, pelas mãos daqueles que acordam cedo, enfrentam jornadas cansativas e realizam suas tarefas com honestidade e responsabilidade.

Floro representou esse trabalhador.

Sua história nos faz recordar uma Petrolina de outros tempos: uma cidade menor, onde as pessoas se conheciam pelo nome, a palavra empenhada possuía grande valor e o trabalho era considerado uma extensão do caráter. Era o tempo das oficinas movimentadas, dos campeonatos entre empresas, das amizades cultivadas no ambiente de trabalho e dos profissionais que permaneciam décadas servindo à mesma organização.

Há saudade quando olhamos para trás. Mas há também orgulho.

Orgulho de saber que Petrolina acolheu um jovem cearense que pretendia seguir para São Paulo e lhe ofereceu a oportunidade de construir uma trajetória vitoriosa. Orgulho de lembrar que esse homem retribuiu o acolhimento com mais de 50 anos de trabalho, com serviço comunitário e com dedicação ao esporte.

Floro Firmino Alves veio de Jardim, escolheu Petrolina para viver e transformou sua profissão em exemplo para todo o país. Tornou-se um dos homens que ajudaram a escrever nossa história e passou a fazer parte dela.

Quando Petrolina celebra seu aniversário, nossa memória precisa se voltar para pessoas assim. Pessoas que talvez não tenham seus nomes gravados nas fachadas dos grandes prédios, mas deixaram suas marcas nas oficinas, nas empresas, nos campos de futebol, nas ações sociais e, principalmente, no coração daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-las.

Floro foi um operário de Petrolina.

Floro foi o Operário Padrão do Brasil.

E, acima de tudo, foi um homem cuja vida honrou o trabalho, a família e a cidade que escolheu para chamar de sua.

Rinaldo Remígio, Professor universitário aposentado, administrador, contador, historiador e mestre em economia.

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