Trabalhar como motorista de aplicativo exige mais do que longas jornadas. Segundo levantamento do Centro de Pesquisas Judiciárias, Estatística e Ciência de Dados do Tribunal Superior do Trabalho (TST), os custos mensais da atividade ultrapassam R$ 5 mil, considerando despesas como combustível, manutenção, depreciação do veículo, seguros e tributos. Ao mesmo tempo, a categoria segue cobrando maior proteção trabalhista, previdenciária e regras mais transparentes na relação com as plataformas digitais.
O estudo estima que um motorista que trabalha 22 dias por mês, oito horas por dia e percorre trajetos urbanos a uma velocidade média de 25 quilômetros por hora desembolsa R$ 5.566 mensais quando utiliza veículo próprio. Para quem trabalha com carro alugado, a despesa sobe para aproximadamente R$ 5.706 por mês.
Para o motorista de aplicativo Otávio Gomes de Souza, muitas corridas deixam de compensar diante dos custos da atividade. Segundo ele, o valor mínimo pago por uma viagem, de R$ 6,50, é insuficiente para cobrir as despesas.
“Rodo praticamente os 30 dias do mês, geralmente à noite. Só de combustível gasto cerca de R$ 3 mil. Ainda tem manutenção, troca de óleo a cada três meses e o IPVA, que passa de R$ 1,6 mil por ano. Algumas plataformas, como a Uber, não oferecem nenhum tipo de ajuda nesses custos e ainda descontam entre 20% e 30% do valor das corridas. Muitas vezes ainda precisamos percorrer uma longa distância para buscar o passageiro, o que acaba não compensando”, relatou.
O motorista acrescenta que plataformas como a 99 oferecem alguns benefícios, entre eles descontos em postos de combustíveis e cortesias como café e lanches. Ainda assim, ele afirma que os custos da atividade continuam elevados.
Segundo Jeison Lima de Holanda, presidente da Associação das Trabalhadoras e Trabalhadores por Aplicativo de Pernambuco (Attape), a principal reclamação da categoria são as taxas cobradas pelas plataformas. Ele afirma que, embora as empresas divulguem percentuais em torno de 20%, os descontos podem chegar a 30% ou até 40%, sem critérios transparentes. Outro ponto de preocupação é a ausência de suporte em relação aos custos de manutenção dos veículos e à assistência aos trabalhadores.
O dirigente da Attape reforça que, embora a atividade seja legalizada e respaldada pelo princípio da livre iniciativa, a falta de regulamentação deixa os trabalhadores por aplicativo sem garantias mínimas e sujeitos às decisões unilaterais das plataformas.
“Além de termos de arcar com todos os custos, a falta de regulamentação permite às empresas alterarem taxas, regras e bloquearem motoristas sem justificativa e sem possibilidade de defesa. Há, inclusive, mudanças no sistema de entregas que precarizam ainda mais as condições de trabalho. Recentemente, o iFood definiu que uma rota de um entregador de motocicleta de até cinco quilômetros corresponderá ao valor de R$ 3,10, fazendo com que os trabalhadores precisem trabalhar mais para ganhar menos”, afirmou. (Foto: Sandy James).






