Chico Fernandes — Uma vida que virou frequência no coração do povo
Por Rinaldo Remígio
Há histórias que começam por acaso, mas se firmam pelo propósito. Minha amizade com o comunicador Chico Fernandes nasceu assim, em 1989, quando eu buscava abrir espaço para um programa evangélico da denominação batista numa rádio da cidade. Naquela época, fui orientado a procurar o então diretor da emissora, Dr. Augusto Coelho, que prontamente escreveu um bilhete simples, mas decisivo: “Favor atender o pedido de Rinaldo.” Foi com esse recado que bati à porta de Chico Fernandes. E ali começava não apenas um projeto, mas uma amizade sólida que permanece até hoje.
O pedido foi atendido. E assim colocamos no ar o programa “A Voz Batista de Petrolina”, que logo depois passou a se chamar “Programa Água Viva”. O programa era transmitido aos sábados, logo após o programa policial “Agente 680”, e aos domingos pela manhã. Permaneceu no ar por nove anos, cumprindo seu propósito de levar uma mensagem de fé, esperança e edificação espiritual aos lares da nossa região. Foram anos de parceria, de compromisso e de respeito ao ouvinte — e ali, mais uma vez, Chico demonstrou não apenas profissionalismo, mas também sensibilidade ao abrir espaço para um conteúdo de formação espiritual.
Faço essas colocações iniciais apenas para situar o leitor sobre a nossa amizade, pois esta crônica é, sobretudo, uma homenagem a este amigo que fez da sua voz e do rádio a sua própria identidade.
Chico Fernandes é paraibano, nascido em Princesa Isabel. Ainda menino, mudou-se com os pais para Itaporanga, onde deu os primeiros passos na comunicação. Aos 12 anos, começou num serviço de alto-falante, espécie de rádio comunitária da época, recebendo como pagamento ingressos de cinema — um início humilde, mas cheio de entusiasmo.
Com o tempo, veio a Petrolina, acolhido pela Emissora Rural, onde recebeu sua primeira oportunidade concreta na área de rádio. Seu crescimento foi gradual, sustentado por disciplina, competência e dedicação. Após um período como operador de áudio, foi efetivado no quadro da emissora — um marco que confirmava sua vocação.
Em 1985, assumiu o desafio de gerenciar a Rádio Grande Serra, em Araripina, a convite do Sistema Grande Rio. Foi o início de uma trajetória que o consolidaria como um dos nomes mais respeitados da comunicação regional. Ao longo dos anos, participou da expansão do sistema de comunicação da região, contribuindo para a implantação da Rádio Grande FM, TV Grande Rio, Rádio Boa Vista FM e Rádio Voluntários da Pátria, em Ouricuri.
Sua longa trajetória na Rádio Grande Rio AM, onde permanece até hoje com o programa “Forró Pé de Serra”, o consagrou como uma voz familiar para gerações de ouvintes. São mais de quatro décadas de comunicação, marcadas por credibilidade, respeito ao público e uma conduta profissional exemplar. É por isso que se pode dizer, sem exagero, que Chico Fernandes se confunde com o próprio rádio: sua história é parte viva da história da radiodifusão regional, sua voz é parte da memória afetiva de milhares de ouvintes e sua presença, uma referência indissociável da comunicação no Vale do São Francisco.
No campo pessoal, Chico construiu uma família pautada em valores sólidos, ao lado de sua esposa Maria Marconiete, e dos filhos Gregory e Michelly. A vida lhe trouxe reconhecimento público, incluindo o título de Cidadão Petrolinense e a Medalha de Honra ao Mérito Dom Malan, a maior honraria concedida pelo Legislativo municipal — distinções que coroam uma vida de serviço e compromisso social.
Hoje, ao recordar aquele primeiro encontro e tudo o que veio depois, fica evidente que Chico Fernandes não é apenas um comunicador — é um construtor de pontes, um semeador de oportunidades e um guardião da comunicação feita com verdade e respeito. Aquele bilhete de Dr. Augusto Coelho abriu uma porta, mas foi o caráter e a generosidade de Chico que mantiveram essa porta aberta por quase uma década de programação evangélica e por uma vida inteira de amizade.
E é por isso que sua trajetória merece ser celebrada: porque, mais do que falar ao microfone, Chico Fernandes aprendeu a falar ao coração das pessoas.
Rinaldo Remígio é professor universitário aposentado, administrador, contador, historiador e mestre em economia.






